Sri Lanka tem domingo menos violento, mas clima de tensão e incertezas persiste | Mundo


A situação permanece incerta neste domingo (10) no Sri Lanka, onde o presidente Gotabaya Rajapaksa concordou em renunciar na próxima semana, depois de ser forçado a fugir de seu palácio, invadido pela multidão de manifestantes que protestava contra a grave crise que afeta o país.

Os Estados Unidos pediram neste domingo que os futuros novos líderes do Sri Lanka “trabalhem rapidamente” em soluções contra a deterioração das condições econômicas, “incluindo cortes de eletricidade, escassez de alimentos e combustíveis”, declarou um porta-voz do Departamento de Estado.

“Para garantir uma transição pacífica, o presidente disse que deixará o cargo em 13 de julho”, informou o presidente do Parlamento do Sri Lanka, Mahinda Abeywardana, neste sábado (9).

Manifestantes invadem piscina da residência oficial da presidência no Sri Lanka

Duas pessoas próximas ao presidente apresentaram rapidamente suas renúncias: o chefe do serviço de imprensa, Sudewa Hettiarachchi, e o ministro das Mídias, Bandula Gunawardana, que também deixou seu cargo à frente do partido presidencial.

O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe tentou abrir caminho para um governo de unidade nacional, convocando uma reunião de crise do governo com partidos da oposição e propondo sua renúncia. Mas isso não foi suficiente para acalmar a ira dos manifestantes que, na noite de sábado, sitiaram a residência do presidente e, na sua ausência, a incendiaram, sem deixar feridos.

Diversos parlamentares da oposição se disseram prontos para atuar na situação de crise que se instaurou. Mas se essa nova coalizão de governo se revelar realmente viável, terá que lidar com uma população refratária à classe política, um país falido e um cenário de desabastecimento.

Se o primeiro-ministro e o presidente de fato renunciarem, será o presidente da Assembleia Nacional que se tornará presidente do Sri Lanka por um período de 30 dias, durante o qual os deputados terão que eleger um novo chefe de Estado, observa Sébastien Farcis, outro correspondente regional da RFI.

Manifestantes dentro da residência presidencial do Sri Lanka, em Colombo, em 9 de julho de 2022 — Foto: Reuters

O presidente Rajapaksa, de 73 anos, que esteve na berlinda por meses, conseguiu fugir minutos antes que centenas de manifestantes entrassem em seu palácio, normalmente reservado para recepções, mas para onde ele se mudou em abril após um ataque a sua casa particular.

Soldados que guardavam a residência oficial dispararam para o alto para impedir que os militantes se aproximassem do palácio até que o presidente fosse retirado e embarcasse em um navio militar, de acordo com uma fonte das Forças Armadas, para a base naval de Trincomalee, no nordeste da ilha.

Forma pacífica e constitucional

Depois da meia-noite de sábado, o chefe do Estado-Maior da Defesa, general Shavendra Silva, fez um apelo por calma na televisão, assegurando: “Há possibilidade de resolver a crise de forma pacífica e constitucional”.

O Hospital Nacional Colombo, o principal da capital, registrou 105 pessoas internadas após os protestos de sábado, sendo que 55 delas ainda recebiam tratamento neste domingo. Entre os feridos estão sete jornalistas. “Uma pessoa está em estado muito grave após um ferimento a bala”, revelou à AFP a porta-voz do hospital, Pushpa Soysa.

Neste domingo, manifestantes que ainda ocupam o palácio presidencial disseram que não sairiam até que o presidente realmente renuncie. “Nossa luta não acabou”, afirmou o líder estudantil Lahiru Weerasekara a repórteres. “Nós não vamos desistir dessa luta até que ele realmente vá embora.”

Estudantes ativistas disseram que encontraram 17,8 milhões de rúpias (cerca de R$ 260 mil) no quarto de Rajapaksa e os entregaram à polícia.

Na noite deste domingo, a área marítima de Galle Face, centro do movimento de revolta desde o início, continua ocupada pela multidão, relata um dos correspondentes regionais da RFI, Côme Bastin. Nenhum incêndio foi registrado, mas três homens foram presos por incendiar a residência do primeiro-ministro Wickremesinghe na véspera.

Neste sábado, as manifestações para exigir a renúncia de Rajapaksa reuniram centenas de milhares de pessoas em Colombo. Os confrontos opuseram manifestantes e forças de ordem, que tentaram dispersá-los com gás lacrimogêneo. Canais de televisão locais mostraram imagens de centenas de pessoas subindo os portões do palácio presidencial. Os manifestantes transmitiram nas redes sociais vídeos da multidão se deslocando no interior do palácio, com alguns mergulhando na piscina e outros se instalando nos dormitórios.

Manifestantes invadiram a residência oficial do presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, em Colombo, no dia 9 de julho de 2022 — Foto: Dinuka Liyanawatte/Reuters

Durante a noite deste sábado, os manifestantes também ocuparam os escritórios presidenciais próximos, em frente aos quais os manifestantes estavam acampados há três meses.

No passado um país de renda média, com um padrão de vida invejado pela Índia, o Sri Lanka foi devastado pela perda de receitas turísticas após um ataque jihadista em 2019 e depois pela pandemia de Covid-19.

A crise sem precedentes desde a independência, em 1948, desta ilha de 22 milhões de habitantes, foi agravada, na opinião dos economistas, por uma série de más decisões políticas de que o clã presidencial, no poder desde 2005, é acusado pela população.

“Essa é a grande esperança do país, porque a família, não apenas ele [Rajapaksa], queimou milhões de rúpias e precisa devolvê-las ao Estado. Desde os 75 anos de independência, nunca vivemos um período como este, estes últimos quatro ou cinco meses. Tem gente que dorme três, quatro, cinco dias no carro. As crianças pequenas não podem ir à escola, elas moram com o pai no touk touk, estudam com [a luz de] uma vela. […] O Rajapaksa nunca acreditou que poderíamos expulsá-lo assim, mas o povo do Sri Lanka conseguiu, é uma revolução”, conta Kumar de Silva, consultor de mídia em Colombo, à correspondente da RFI Jelena Tomic.

O país está negociando um plano de resgate com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que informou neste domingo esperar “uma solução da situação atual para permitir a retomada do diálogo”. O FMI também questiona as suspeitas de corrupção do governo, outro tema no alvo dos manifestantes.

Ainda neste domingo, em Bangkok, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, declarou que as restrições da Rússia às exportações de grãos ucranianos podem ter contribuído para a escassez no Sri Lanka. O secretário disse estar “preocupado com o fato de esta guerra desencadear outras crises semelhantes em todo o mundo”.

O Papa Francisco também expressou sua solidariedade à população do Sri Lanka neste domingo. “Imploro às autoridades que não ignorem o clamor dos pobres e as necessidades do povo”, declarou ele.

(Com informações da AFP)



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